De novo
Martha Medeiros
Anos atrás escrevi uma crônica dizendo que era perda de tempo ler, já que para ser alguma coisa na vida bastava comer gafanhoto vivo. Estávamos vivendo o auge do programa No Limite, mas muita gente não entendeu a ironia: me escreveram pedindo que eu não deixasse de incentivar a leitura.
O pior é que erro e não aprendo. Semana retrasada publiquei outro texto irônico, falando sobre a necessidade descabida que temos de consumir qualquer coisa que surja com o rótulo de novidade. Na última frase, deixei bem claro que estava cansada de invencionices. Mas ficou claro coisíssima nenhuma. A maioria dos e-mails que recebi era de pessoas dizendo “é isso aí, concordo com você, temos que fazer coisas novas, viver cada dia de um jeito”. Outro tiro pela culatra.
Então hoje, sem dar uma de engraçadinha e sem correr o risco de ser incompreendida, volto ao assunto pra citar alguns exemplos de novidades que demonstram que está mesmo valendo qualquer coisa pra ser diferente. Um é o flash mob, que virou moda em Nova York meses atrás e já chegou ao Brasil.
São aglomerações com local e hora pré-determinados, onde um grupo se encontra, faz alguma performance rápida e depois dispersa. Em São Paulo, o primeiro flash mob deu-se assim: um grupo encontrou-se na Avenida Paulista, aí todos tiraram um pé do sapato e bateram com ele no chão. Depois o calçaram e foram embora, cada um para um lado. Mas a proposta pode ser uma gritaria coletiva, pular 10 metros como um saci... Performances.
Tem também leilões em que não são oferecidos lances por quadros, joias ou tapetes, e sim pela companhia de uma celebridade para jantar ou até mesmo por um beijo cinematográfico. Foi o que Sharon Stone ofereceu – e deu – para uma fã americana que desembolsou o equivalente a R$ 160 mil por 45 segundos de amasso explicito, com direito a todos os músculos bucais envolvidos.
Mais um exemplo? O novo acessório fashion que surgiu em alguns desfiles na Europa: o uso decorativo do band-aid. Simplesmente colocar um band-aid no corpo sem ter nenhum machucado, apenas como bossa.
No que isso prejudica o mundo? Em coisa alguma. Ao contrário, distrai. É a celebração do nonsense. Em vez de desabarmos para dentro, caindo no próprio vazio, externamos nosso vazio na tentativa de dar-lhe alguma utilidade, nem que essa utilidade seja nenhuma.
Preencher vazios não é tarefa para amadores. É preciso mais do que piruetas no meio da rua, ter uma rápida intimidade com um artista ou usar band-aid feito tatuagem. O preenchimento do nosso vazio se dá através de maneiras ainda muito tradicionais: através da arte, da emoção, do pensamento, do esporte e da solidariedade. O resto é festa, é diversão ocasional, o que, aliás, é ótimo, não mata nem engorda. Mas o vazio segue vazio. E o novo, quando não tem nenhum propósito, continua nascendo com cara de velho.
Domingo, 31 de agosto de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.